2015 sem medo: Riscos e vantagens

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Por Sheila Hissa - 18/12/2014

Em entrevista exclusiva, o economista Ricardo Amorim aponta os entraves na economia que ameaçam o que foi conquistado até agora, mas também expõe as fortalezas do País

Em entrevista exclusiva, o economista Ricardo Amorim aponta os entraves na economia que ameaçam o que foi conquistado até agora, mas também expõe as fortalezas do País

 

 

Crítico da política econômica de Dilma Rousseff, em seu primeiro mandato, o economista Ricardo Amorim reconhece que a presidente começa a tomar medidas importantes, no sentido contrário ao que propagava em sua campanha eleitoral. Medidas que podem contribuir para um cenário menos difícil daqui para a frente. Porém considera prematuro apostar em todas as mudanças necessárias para colocar ordem na casa no que diz respeito a gastos públicos, inflação, produção industrial, produtividade, infraestrutura, entre outros pontos. Apresentador do programa Manhattan Connection, presidente da Ricam Consultoria e único brasileiro na lista dos melhores palestrantes mundiais do Speakers Corner, Amorim concedeu entrevista para SM sobre os riscos de mais uma gestão pautada apenas no consumo, e sem a confiança do empresariado. Mas ressalta que não se pode ignorar o peso de alguns setores da economia, e o fato de algumas regiões do País estarem "condenadas ao crescimento". Como afirmou em palestra no 9º Fórum de Colaboração Varejo e Indústria, realizado por SM, contamos com "um Brasil de oportunidades".

Você diria que a presidente Dilma já deu algum sinal de mudança no ar?

Sim. Na primeira semana após as eleições, o governo aumentou o preço da gasolina e subiu os juro – todas medidas necessárias, que durante a campanha eleitoral a presidente negava.

A flexibilização da meta fiscal está entre as boas ou más decisões?>

Flexibilizar a meta fiscal é apenas mais uma forma de quebrar os termômetros que indicam que a situação não vai bem. É como calar o IPEA e o IBGE. Nossa meta era ganhar a Copa. Já que não deu, passou a ser perder de 7 a 1 da Alemanha. Atingimos a meta, mas temos razões para comemorar?

Qual sua avaliação da escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda?

É mais um bom sinal para a realização dos ajustes necessários. O Joaquim Levy tem a habilidade técnica para colocar o Brasil no caminho certo. E imagina-se que para aceitar o cargo, tenha exigido liberdade de ação de modo a tomar as decisões que tornem isso possível.

O consumo deve continuar 'vilanizado'?

O consumo não deve ser vilanizado de forma alguma, mas a produção também não, como ocorreu nos últimos anos. A produção da indústria hoje é menor do que há seis anos. Nenhum país consegue crescer em ritmo acelerado com a indústria estagnada. E a indústria não voltará a crescer se não incentivarmos a produção. O problema não foram os incentivos ao consumo, mas a falta de incentivos à produção. Crescimento equilibrado exige tanto produção quanto consumo fortes.

A redução da pobreza levou um contingente de pessoas ao consumo. Isso poderá ser comprometido caso o governo não tome medidas para impulsionar a economia?

Como as últimas estatísticas do IPEA deixaram claro, se o País não voltar a crescer em ritmo mais acelerado, as grandes conquistas sociais das duas últimas décadas correrão risco. No ano passado, o número de pessoas na miséria aumentou em 371 mil pessoas. De lá para cá, a economia se contraiu e a inflação subiu, o que sugere que os dados de miséria e pobreza de 2014, provavelmente, serão piores do que os de 2013.

Os 12 milhões de favelados do País têm um potencial de consumo de cerca de R$ 64 bilhões. Esse potencial pode ser frustado?

Se os investimentos das empresas se contraíssem ainda mais, levando a uma queda significativa do número de empregos, o risco seria real. O fator fundamental para que isto acontecesse seria um agravamento da confiança dos empresários na economia. Por isso, é importante uma equipe econômica que convença que os investimentos privados serão bem-vindos e estimulados.

As indústrias de bens de consumo de massa continuam com projetos de investimento que geram empregos e movimentam o mercado. Elas estão equivocadas?

As empresas não estão equivocadas. A economia brasileira vai mal, mas há algumas regiões e muitos setores, como o de bens de consumo de massa, que vão bem. É claro que os investimentos e empregos no setor ajudam, mas sozinhos não resolvem. Nos nove primeiros meses do ano, mesmo com a criação de empregos na indústria de bens de consumo de massa, o número de empregos na indústria diminuiu em 117 mil pessoas.

O varejo está igualmente acelerando os investimentos. O que ele deverá enfrentar?

O fator fundamental é se a economia continuará a se desacelerar ou não. Se a economia não for capaz de gerar empregos, acabará faltando renda para o consumo. Mas para que isso não aconteça, basta retomar a confiança de empresários.

Você acredita que o bônus demográfico será inevitavelmente favorável ao crescimento?

O bônus demográfico deve nos ajudar por mais uns 10 anos. O percentual de pessoas em idade de trabalho está aumentando, enquanto o percentual de aposentados e crianças, que tem de ser sustentado, está caindo. Nesta situação, com mais gente trabalhando, o País tende a crescer mais. Daqui a 10 ou 15 anos, a situação vai se inverter: mais idosos aposentados e um percentual menor da população trabalhando, o que dificultará o crescimento do País. Aliás, é isso que em parte explica por que Europa e Japão não conseguem crescer com vigor há mais de duas décadas.

A ONU está errada quando diz que o Bolsa-Família é uma renda fixa não sujeita ao vai e vem da economia?

O Bolsa-Família é um programa com méritos e deméritos. Seu mérito mais importante é reconhecer uma situação onde não temos hoje a escolha entre dar o peixe ou ensinar a pescar. Milhões de brasileiros precisam receber o peixe para sobreviver e, quem sabe, ter a chance de aprender a pescar algum dia. O Bolsa também injeta R$ 20 bilhões nas mãos dos brasileiros mais propensos a gastá-los, movimentando a economia, sobretudo nos locais mais pobres. Isto explica por que o Nordeste e Norte, áreas onde respectivamente 50% e 30% das famílias em cada Estado recebem Bolsa-Família, crescem mais do que a média brasileira nos últimos 10 anos. Mas o Bolsa-Família peca por não preparar seus beneficiários, mas apenas seus filhos. E o fato do valor ser o mesmo em todo o País cria em locais muito pobres, onde o custo de vida e os salários são baixos, um desincentivo ao trabalho. Entre ganhar Bolsa sem trabalhar e ganhar apenas um pouco mais trabalhando, alguns ou talvez muitos optam por não trabalhar.

Alguns empresários alegam que se o pobre não se endividasse não compraria nada. O que você acha dessa análise?

Simplista e equivocada. Correta no curto prazo, mas completamente errada em prazos maiores. Esta lógica condiciona o crescimento econômico de hoje a crises e estagnação no futuro. Consumo é ótimo, e o fato do crédito permitir que o consumo possa acontecer também é ótimo, mas endividamento em excesso condena economias inteiras à estagnação, o que aliás temos visto nos EUA e Europa desde 2008.

Você já falou que Norte, Nordeste e Centro-Oeste estão destinados a crescer. Isso não significa que o País está no rota certa?

É ótimo que essas regiões cresçam. Mas elas representam menos de 46% da população e 28% do PIB do País. Sozinhas não conseguirão sustentar a economia, se o Sul e Sudeste continuarem estagnados. O contrário é mais provável: que a estagnação do Sul e Sudeste acabe contaminando as demais regiões. Mal comparando e sem nenhum sentido pejorativo, o rabo não consegue abanar o cachorro. Aliás, é pelo mesmo motivo que a estagnação dos países ricos importa para todo o mundo. Neste caso, os países emergentes são o rabo do cachorro e as economias desenvolvidas, o cachorro.

Veja também:

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2015 sem medo: Varejo na melhor
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2015 sem medo: Exemplos de fora

 

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